Cases & Estratégias

Carta Aberta a Miuccia Prada

Querida Miuccia,

Queria começar esta carta dizendo que você é uma das razões de eu trabalhar com moda. Era adolescente nos anos 90 quando descobri um novo mundo nas páginas da Vogue – e a Prada era uma das personagens principais. Aqueles looks vintage-intelectual me fascinaram em uma época em que a moda ainda não era tão acessível. Ano após ano, esperava ansiosamente pelo novo desfile (vendo as fotos no Style.com) para conferir como você ia mudar completamente os rumos. A combinação de cores, as formas, as texturas, os detalhes espertos – que podiam ser um broche, uma estola de pele, o salto de um sapato, uma nova forma de carregar a bolsa… Miuccia, você me enchia de inspiração!

Porém, os anos passaram e mesmo com sua criatividade surpreendendo sistematicamente a indústria, a empresa têm passado por períodos não muito otimistas. Entendo como é difícil gerenciar uma marca global, a pressão de ter aberto capital, a demanda por expandir a grife e por aí vai. Bolsas, sapatos, perfumes precisam ser vendidos. Em grandes quantidades! De repente, vejo as bolsas em muitos lugares e elas se tornam menos cobiçadas. Vou a diferentes shoppings nos EUA, aqui no Reino Unido e no Brasil e a Prada está por toda a parte. Não é mais tão exclusiva, não é mais tão cool. Ficou onipresente, óbvia, previsível. Três adjetivos que são o oposto do que a Prada representa, o que me entristece muito.

Então, Miuccia, como recuperar essa época de ouro? Você é uma Criadora, não abra mão do seu ponto de vista, não tente seguir os outros. Adoraria ver um mix melhor entre roupas e acessórios e a influência das artes ser usada de uma maneira subversiva para encantar novamente a sua cliente. Sei que o maior desafio para uma marca de luxo é crescer sem perder a aura de raridade. Isso é muito difícil atualmente.

De alguma forma, nos acostumamos com a onipresença da Louis Vuitton, da Gucci e de várias outras, mas não da Prada. Você precisa mesmo de tantas lojas? Não seria melhor investir mais nos epicentros e limitar outros pontos de venda? Agora vamos falar de um assunto quase proibido: digital. Sei que você não gosta e que a presença da marca nas mídias sociais é sofrível, quase constrangedora. Mas uma empresa tão ligada a arte e a quebrar padrões podia fazer muito mais do que postar clippings de celebridades ou closes de produtos. O mesmo vale para o site e para o e-commerce. Apesar do site ter melhorado o layout e a loja virtual ter uma seleção razoável de produtos, sabemos que isso não é suficiente e a experiência de compra é decepcionante. Concordo que os filmes são maravilhosos, mas eles estão criando impacto? Desculpe a honestidade.

Talvez as equipes de design e de marketing pudessem trabalhar mais alinhadas para garantir uma melhor comunicação da imagem da marca, o que infelizmente não está acontecendo. Miuccia, sei que as coisas não estão fáceis e que um monte de planilhas de Excel devem ser jogadas em sua mesa com metas financeiras a serem alcançadas. Um saco. Ignore-as e foque no que realmente importa: as suas criações.

Ainda assim, lembre-se que até os melhores produtos precisam ser vendidos de uma forma que mostre como eles são incríveis. Estou torcendo para ver seus conceitos fora do padrão serem usados para resolver essas questões gerenciais dentro da marca.

Ah, o desfile de outono/inverno 2016 foi excepcional, ok?

Att,
Mirela

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